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Os irmãos paulistanos
Otávio e Gustavo Pandolfo - gêmeos
idênticos -, 32 anos, que têm muros grafitados nos
quatro cantos do planeta - EUA (Nova York, Los Angeles, São
Francisco), Austrália, Alemanha, Portugal ,
Itália, Grécia, Espanha, China, Japão,
Cuba, Chile e Argentina - batizaram a mostra com o nome da
instalação-surpresa ainda em processo de
finalização O Peixe que Comia Estrelas Cadentes.
A exposição também inclui
pintura-mural e uma série inédita de
pinturas-objeto.
Hip hop
Otávio e Gustavo começaram a grafitar no final
dos anos 80 , no bairro do Cambuci (zona sul de São Paulo),
onde nasceram. Eles militavam no movimento hip hop, quando este
alcançava o auge no Brasil. Além de grafitar, a
dupla percorria a cidade fazendo apresentações de
break (modalidade de dança de rua que, juntamente com o rap
e o próprio grafite, são marcas do movimento
nascido nos EUA, na década de 70). "A gente frequentava a
Estação São Bento (do
Metrô), que na época era o
´point´ dos caras que curtiam hip hop", conta
Gustavo.
Os irmãos fazem questão de deixar claro, contudo,
que, do final dos anos 80 para cá, apesar de continuarem a
participar de eventos ligados ao hip hop, seu vínculo com o
movimento mudou radicalmente. "A gente conhece bastante a cultura, teve
uma ligação forte. Então, de vez em
quando, acontece um convite assim. Mas, hoje em dia, nosso trabalho
não tem nada a ver mais com o hip hop".
"Grafite x pichação"
Um olhar um pouco mais atento permite concluir que o grafite feito hoje
por Otávio e Gustavo mantém poucas
semelhanças com aquele que ainda dá sinais de
beber da fonte dos precursores : os "manos" afro-americanos que se
criaram no Bronx. Essas diferenças entre estilos costumam
vir à baila na sempre revigorada polêmica "grafite
x pichação". Controvérsia na qual Os
Gêmeos preferem não jogar lenha. "A gente
já não aguenta mais responder perguntas do tipo
´qual a diferença entre grafite e
pichação?´ Isso não
importa", dispara Gustavo.
O nível de elaboração e a riqueza de
detalhes dos murais grafitados pelos gêmeos vêm,
segundo eles, de uma obsessão pela prática do
desenho. Eles contam que nunca fizeram um curso. O estudo, ainda hoje,
acontece em casa. "A gente sempre estudou, desde pequeno: desenho,
desenho, desenho".
Fino traço
Foi justamente essa aplicação que ajudou a forjar
o estilo de Os Gêmeos. Para eles, as principais
características de seu trabalho vêm da maneira
como o desenho é feito: "O jeito de a gente usar o spray, a
linha, o contorno...", explica Gustavo. "A gente faz fininho -- isso
também é estilo nosso".
A preocupação com detalhes fica evidente
também na criação dos trajes de seus
personagens."A estampa das roupas também é uma
característica que a gente tem". Os personagens, mostrados
em situações que ora parecem saídas de
sonho, ora da dura realidade brasileira, são todos
revestidos de um lirismo sem paralelo nesse tipo de
manifestação artística.
"O que a gente quer, o jeito como filtra as
informações, a gente coloca através
dos personagens".
Quando o assunto
se aprofunda na questão das influências
artísticas, ambos preferem não citar nomes. "Acho
que começam com a arte brasileira, a cultura popular
brasileira", revela Otávio, "e vão até
tudo o que a gente sonha, vê, sente, ouve".
E Volpi ?
A confusão sobre a suposta influência do artista
no estilo de pintura de Os Gêmeos tem mais de uma
explicação. A primeira delas : as bandeirinhas,
que se repetem no traje de vários dos personagens criados
pelos imãos, segundo eles, teriam a mesma origem das que, a
partir dos anos 50, tornaram-se frequentes na obra de Volpi : as
festividades juninas (São João, Santo
Antônio e São Pedro).
Alfredo Volpi (nascido na Itália em 1896 e falecido em
1988), como Os Gêmeos, morou quase toda a sua vida no Bairro
do Cambuci. Gustavo conta que, quando crianças, ele e o
irmão estiveram, em certa ocasião, no
ateliê do artista. "Gostamos do trabalho dele , mas
não virou influência", ressalta.
"A gente tem muito dessa coisa do brasileiro, do improviso, das coisas
que o brasileiro faz para se virar. Tem muito dessas
improvisações no nosso trabalho", argumenta
Otávio, aludindo ao fato de que Volpi, além de
auto-didata, se encarregava de fazer seus próprios pincéis e telas.
Outra "coincidência": o artista, que veio
da Itália ainda criança, iniciou-se na pintura
como "decorador de paredes", ou seja, fazendo uso do mesmo tipo de
suporte que, décadas mais tarde, notabilizaria Os
Gêmeos do Cambuci.
Filme para Nike
A visibilidade alcançada pelo trabalho da dupla, presente em
muros ao redor do planeta, acabou rendendo-lhe convites como o da Nike.
Otávio e Gustavo foram contratados para fazer a parte
gráfica do documentário patrocinado e
co-produzido (juntamente com a O2 Filmes) pela fabricante de materiais esportivos.
"Ginga - A Alma do Futebol Brasileiro" teve
direção de Hank Levine, Marcelo Machado e Tocha
Alves e produção-executiva a cargo do cineasta
Fernando Meirelles. O lançamento no Brasil aconteceu em
abril último. "Convidaram a gente por ter esse estilo bem
brasileiro de pintar", conta Otávio. "Fizemos as vinhetinhas
e decoramos todas as peças passadas no filme".
Fernando Meirelles gostou tanto da experiência de trabalhar
com Os Gêmeos, que os convidou para auxiliarem na
produção das animações para
a série televisiva da Rede Globo, Cidade dos Homens. "A
gente fez a animação com ele. Foi um outro
experimento", lembra Otávio . "A gente falou : vamos fazer
uma brincadeira , vamos ver no que é que dá".
Ainda por conta do trabalho para a Nike, Otávio e Gustavo
passaram quatro meses viajando por cidades de sete países.
Eles contam que a proposta da turnê - batizada de Brasil -
era fazer uma festa brasileira em cada local visitado. Em cada cidade,
acontecia uma exposição com o trabalho dos
grafiteiros e a exibição do filme Ginga. "Eles
precisavam de artistas que representassem a nossa cultura
através das artes plásticas ou das artes
visuais", explica Gustavo.
Outros suportes
Foi entre uma viagem e outra que surgiu a proposta de desenhar um
tênis especial para a marca. Os calçados,
produzidos em edição limitada e
lançados apenas nas cidades visitadas durante o tour
organizado pela Nike, tiveram a parte traseira, a língua e a
palmilha ilustradas pelos grafiteiros.
Sobre o convite que os traz agora a São Paulo quem fala
é Gustavo: "Veio da Márcia e da Alessandra
(Márcia Fortes e Alessandra Ragazzo d´Aloia,
sócias-fundadoras da galeria). Elas já conheciam
o nosso trabalho e o que a gente fez em Nova York também",
continua, referindo-se à estréia deles no
circuito formal de arte contemporânea, com uma grande
exposição na Deitch Projects Gallery (que
representa Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, artistas que
também alcançaram fama usando o grafite como
linguagem). "Acho que acabou rolando assim: ´Pô,
como os caras são de São Paulo e nunca fizeram
nada aqui? Vamos fazer, meu, tá na hora de fazer", acredita
Otávio.
Embora a paixão pela atividade nas ruas não tenha
arrefecido, os rapazes não escondem a
empolgação com a nova empreitada. Sobretudo,
segundo contam, pela miríade de possibilidades implicadas em
mostrar seu trabalho em uma galeria, fazendo uso de um
espaço que, nas palavras de Otávio, "pode ser
transformado em 100%". "Você pode ter um trabalho
tridimensional, pode ter luz, música, pode ter objeto,
você pode fazer uma coisa se movimentar".
Grafite, só lá fora
Mas é quase em uníssono que Os Gêmeos
dizem que o que eles vão exibir nas dependências
da Fortes Vilaça não é grafite. "Aqui
dentro é arte, arte contemporânea", esclarecem.
Quem não tiver a oportunidade de estar em São
Paulo para ver a exposição d´Os
Gêmeos, nem puder explorar a cidade para descobrir a marca
deles impressa nos muros, há outras alternativas para
conhecer um pouco mais da arte desses paulistanos. Uma delas
é folhear o livro inglês Graffiti Brasil (Org.:
Tristan Manco, Caleb Neelon, Ignácio Aronovich e Louise Chin
- Ed. Thames & Hudson).
Outra opção é visitar o site Flickr,
onde fãs dos irmãos espalhados pelo mundo
(fotógrafos amadores e profissionais) publicam imagens de
instalações e muros grafitados pela dupla de
artistas quando em passagem por suas cidades . O endereço
é : http://www.flickr.com/groups/osgemeos/ .
No Rio e em POA
Antes de viajar para a Alemanha, onde estarão envolvidos com
novos projetos, Os Gêmeos farão a curadoria do
evento Identidade de Rua (organizado pela ONG gaúcha
Instituto Trocando Idéia Tecnologia Social), cuja terceira
edição deve acontecer em setembro, no Rio de
Janeiro.
Em novembro do ano passado, como parte do projeto, Os Gêmeos,
juntamente com outros conhecidos grafiteiros da cena nacional ,
pintaram vagões do Metrô da Trensurb ( Empresa de
Trens Urbanos de Porto Alegre).
Horário de visitação :
Terça à sexta-feira, das 10h às 19h;
Sáb., das 10h às 17h. Até 16/09.
Entrada franca.
Galeria Fortes Vilaça - Rua Fradique Coutinho, 1500; (11)
3032-7066/ 3097-0384

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Traços inconfundíveis :
Parede de estabelecimento no centro de SP traz marca dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo
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