Logo no início da sabatina, um assunto
que, mais até do que a absolvição de
Renan Calheiros no Senado, vem mobilizando parte da
nação: "Quem matou Taís?". O
responsável pelo trágico destino da personagem
vivida pela atriz Alessandra Negrini, na novela Paraíso
Tropical, de Gilberto Braga (escrita em parceria com Ricardo Linhares)
- cujo capítulo final vai ao ar nesta sexta-feira (28/09),
às 21h, segue cercado de mistérios.
Braga justifica a provocação
que faz ao público de seu folhetim. "Acho interessante
colocar em uma novela um ´quem matou?´, porque faz
com que esse assassinato vire a espinha dorsal", defende. "As
histórias dos personagens começam a se unir,
virando um grande sucesso na maioria das vezes".
Humor
e glamour
É Sílvio de Abreu, no
entanto, quem elege o suspense como um dos principais ingredientes de
suas novelas - seus fãs hão de se lembrar da
apreensão em torno dos assassinatos de A Próxima
Vítima (1995) e Belíssima (2005). O primeiro
ingrediente, segundo o autor, é o humor. E Guerra dos Sexos
(de 1983, com Fernanda Montenegro e Paulo Autran) foi a novela que,
definitivamente, o consagrou nessa seara. Gilberto Braga diz que
glamour é o que os fãs não admitem que
falte em suas tramas.
E como os autores se sentem em
relação aos personagens quando suas novelas
terminam? Ambos concordam que o sentimento que fica é quase
que de missão cumprida. "É um alívio",
diz Abreu. "Eu acho ótimo, não tenho saudade de
nada!", emenda Braga. "A glória é quando vejo o
último capítulo. Acabou, está no ar.
Estou de férias!".
Mas não se pense que esses senhores
não têm carinho por seus personagens. Sobre o
ofício de propriamente concebê-los, Braga conta,
com entusiasmo, que os cria e lapida pensando nos atores de quem gosta.
E a primeira pessoa que lhe ocorre citar é Isabela Garcia,
atriz para quem ele vem talhando personagens desde Água Viva
(novela que a Rede Globo exibiu em 1980). Em Paraíso
Tropical, ele diz ter escrito especialmente para ela o papel de
Dinorá, que , no meio da trama, o marido substitui por outra
mais jovem. "Eu queria que ela fosse uma ex-mulher pentelha", explica,
brincalhão.
Cortando
os pulsos
Mas é com outro par romântico
da novela que Braga se mostra especialmente envolvido: Neli e Heitor
(interpretados por Beth Goulart e Daniel Dantas). "Se eles
não ficarem juntos, eu corto os pulsos", diz, levando a
platéia às gargalhadas . Abreu não
deixa dúvidas sobre o comprometimento dos autores com suas
criaturas: "A gente sofre, se envolve".
Saudado por intelectuais como um dos mais
elaborados autores de telenovelas surgidos por estas bandas, Braga
confessa, em dado momento, que sua experiência de
fruição estética não se
restringe aos clássicos . "Tem hora que a gente quer ver
bobagem, se distrair", admite. "Não é todo dia
que eu vou ler Dostoievski, ver peça do Gorki".
Tabus
abaixo
Embora tanto Silvio de Abreu quanto Gilberto Braga
partilhem da opinião de que a principal
função das novelas deva ser mesmo a de entreter,
nenhum dos dois descarta seu papel educativo. Para Abreu, as novelas
têm ajudado a demolir tabus e o fizeram, por exemplo, quando
explicaram para as pessoas que a homossexualidade não
é um problema. Braga complementa a
argumentação elogiando o tratamento que
Sílvio de Abreu deu ao tema, em A Próxima
Vítima, onde um casal gay - Sandrinho (André
Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) - fugia ao tradicional
tratamento estereotipado.
Gilberto Braga também criou, em
Paraíso Tropical, um casal de homossexuais masculinos
(vividos pelos galãs Carlos Casagrande e Sérgio
Abreu, igualmente não-estereotipados), em torno do qual a
maior polêmica, vinda, segundo ele, de representantes de
movimentos gays, diz respeito à
"contenção" dos personagens na trama. "Eles
reclamam que não tem beijo", diz o autor.
Outro preconceito que os autores têm
tratado em suas obras é o racismo. E, também
nesse caso, virando estereótipos pelo avesso. Ainda em A
Próxima Vítima, os membros da família
negra - que, segundo Abreu, foram muito bem aceitos pelo
público - não estavam em
condição subalterna, nem viviam na periferia,
situações em que os negros, mais comumente,
vêm sendo retratados nas novelas. Braga, que diz ter uma
longa militância contra o racismo, lembra, a
propósito, do destaque que deu ao personagem do
fotógrafo negro, inserindo-o no "mundo do glamour", em
Celebridade (2003).
Vaidosos
Ao final do debate, os autores foram questionados
sobre suas ambições literárias.
Sílvio de Abreu afirma sentir-se realizado com seu
ofício. "Não me vejo escrevendo um livro",
garante. Braga diz que não saberia escrever um romance e
reitera o que, em sua atividade, mais o motiva: "Trabalhamos com o
ator. É nossa matéria-prima". Ele não
diminui a importância do julgamento dos críticos e
confessa ficar exultante ao escrever um capítulo que recebe
elogios . Revela, ainda, que seu companheiro Edgar costuma dizer que
ele fica "um nojo" quando isso acontece.
Antes de a mediadora, a jornalista Regina Zappa,
dar por encerrado o encontro, Gilberto Braga pede licença,
e, dirigindo-se à mulher de Sílvio de Abreu na
platéia, pergunta: "Ele também fica um nojo?".