De Carmen Miranda a Zeca Pagodinho, o violão de Dino Sete Cordas já flertou com todas as vertentes da música popular brasileira. No trato íntimo com o instrumento, o músico carioca, que completa 85 anos neste mês, criou sons jamais ouvidos e se revelou, acima de tudo, um inventor.
"Dino... Ô, Dino." Absolutamente límpida pelas bênçãos da era digital, a voz de Cartola abre a gravação chamando os músicos que irão acompanhá-lo em mais um clássico, "Amor proibido". A convocação-homenagem começa pelo mestre que, tão senhor de seu instrumento, terminou por reinventá-lo num novo ritmo - que o tempo transformou em religião. O Dino chamado pelo lendário fundador da Mangueira - no disco relançado recentemente na magistral coleção Raízes do Samba - e reverenciado por meio mundo da MPB nas últimas cinco décadas recebeu o complemento Sete Cordas. Nome e sobrenome de um emblema de excelência da música brasileira.
As razões, de genial merecimento, vêm do manejo revolucionário do violão que tem a corda extra, a sétima. Ela permite uma espécie de contraponto melódico, mais grave, tirado a partir de uma corda originalmente de violoncelo. Assim, Dino inventou uma nova linguagem , decretando a diferença entre os violões de seis e de sete cordas, especialmente nos conjuntos de choro e de samba. Nas melhores rodas, aliás, a distinção tem nome: baixaria , referência à nota mais baixa na qual a sétima corda é afinada.
"Minha busca era por um som mais grave. Notava que havia essa necessidade", confirma o mestre, diante do olhar embevecido de dona Rosa, sua mulher há admiráveis 59 anos. A história com Cartola é relembrada num sorriso saudoso. Naquela primavera de 1961, quando "Amor proibido" foi gravado, o maior dos sambistas estava, na verdade, fazendo graça ao convocar os músicos, porque, Dino Sete Cordas jura, estavam todos prontos para começar. "Não havia ninguém distraído ou fora do estúdio. Cartola fez de surpresa. E começou", recorda. "À época, já éramos velhos conhecidos."
Como o são estrelas de várias magnitudes e gerações da música brasileira, de todos os tipos, estilos e formatos, que tiveram o acompanhamento sempre preciso de Dino Sete Cordas. "Era rato de estúdio, nem dava tempo de almoçar", descreve o mestre, 85 anos completados agora em maio, falando das jornadas diárias de 12 horas - ou mais -, Rio de Janeiro afora, nos tempos profícuos da produção musical na cidade. Ele mesmo se apressa em desfiar a constelação - de Carmen Miranda a Marisa Monte, de Pixinguinha a Fagner, de Paulinho da Viola a Oswaldo Montenegro, de Orlando Silva a Zeca Pagodinho, Dino tocou com todos.
Mas é a um manda-chuva - cujo nome o tempo levou - do morro do Pinto, favela pouco famosa escondida nos fundos da Rodoviária Novo Rio, que o mundo deve o aparecimento do mestre das sete cordas. O menino Horondino José da Silva passou a infância observando o pai tocar violão e ouvindo rádio, na casa simples onde nasceu e cresceu. No início da adolescência, assumiu o instrumento para sempre - sem jamais ter tido uma aula. "Sou autodidata, nunca tive professor", orgulha-se, ressaltando lições bissextas de teoria musical nos anos 1940. A ajuda do destino veio pelo olho clínico do tal bambambã do morro, ancestral bem mais inofensivo dos Fernandinhos de hoje. Todas as noites, ele batia à casa do menino, então com 13 anos, e o convocava a sair tocando pelas madrugadas de 1931.
O cenário era um Rio de Janeiro ainda sob os efeitos da ebulição cultural vivida na apaixonante e visceral década de 1920. Uma cidade hoje impensável, por tolerante e ingênua - a ponto de preservar incólumes prodígios musicais adolescentes, seus tutores andarilhos e espectadores insones. "Saíamos de noitinha e só voltávamos no outro dia", confirma Dino, que cruzava a Zona Portuária, a Gamboa e a Lapa. Sem idade para conhecer a maior parte dos encantos escorregadios da boemia, ele tornou-se uma presença freqüente, graças à beleza de suas notas. O incrível talento com o violão - ainda de seis cordas - abriu-lhe todas as portas, além de pavimentar a óbvia descoberta de sua vocação.
Na adolescência, a prova de fogo
A consolidação veio quatro anos depois, assim que Dino completou 17 anos. Por meio de outro músico, Jacob do Pandeiro, ele conheceu o flautista Benedito Lacerda, líder do mais festejado conjunto regional da época, num encontro na rua Larga (hoje Marechal Floriano). O primeiro momento, como de praxe nessas histórias, foi de descrédito do astro consagrado diante do novato. Benedito mediu o garoto de alto a baixo, pegou um violão e, fisionomia séria, entregou a Dino. "Aí comecei a descascar o abacaxi", ele brinca, num sorriso.
Benedito, claro, gostou do que ouviu - e o destino, de novo, fez sua parte. No ano seguinte, Nei Orestes, violonista oficial do grupo, pegou uma galopante na Argentina e não pôde tocar. O cavaquinista Canhoto (também chamado por Cartola na gravação de "Amor proibido") sugeriu ao líder do regional que convocasse o garoto do violão. "Foram lá em casa me chamar", recorda Dino, que terminou efetivado, transformando-se definitivamente em músico profissional.
Outra mudança no grupo de Benedito, em 1937, criou uma das mais célebres duplas da boa música brasileira. Jayme Florence, o Meira, assumiu o outro violão, iniciando uma parceria de 40 anos com Dino, que exibiu seu talento em inúmeros discos de samba e choro. Ao fim de uma trajetória pontilhada de artistas e sucessos, os dois transformaram-se num referencial que garantia qualidade à simples menção de seus nomes.
Como o ofício de músico não pagava as contas em casa, Dino dividia-se entre as gravações e o trabalho na Rádio Mayrink Veiga, então uma fábrica de hits. Num dia comum de 1952, ele começou a ensaiar com o violão de sete cordas, por influência de Artur Nascimento, o Tute, violonista que acompanhava Pixinguinha. "Vê-lo tocando era uma experiência maravilhosa, inesquecível", suspira Dino, ao recordar os encontros com o homem que o inspirou.
Tanto que ele decidiu não aparecer em público com o violão de sete cordas enquanto Tute tocasse. "Não queria ser conhecido como imitador", explica, achando graça da preocupação. Além disso, ele precisava se acostumar ao novo instrumento, estudá-lo, torná-lo uma extensão de seu corpo. Durante um ano inteiro, só os funcionários da Mayrink Veiga e Rosa, sua mulher, tiveram o privilégio de ouvi-lo consolidando sua obra-prima.
Pelo cuidado, pelo trabalho ao mesmo tempo sofisticado e obsessivo e, sobretudo, pela invenção de uma nova batida, Dino Sete Cordas assemelha-se a outro gênio - ninguém menos que João Gilberto. Um e outro tiraram de seus instrumentos sons jamais ouvidos antes - e materializaram legiões de fanáticos seguidores. A diferença está no resultado. Enquanto a Bossa Nova de João conheceu sucesso planetário, a baixaria de Dino reinventou o choro, que fez papel de coadjuvante na indústria musical, apesar de sua reconhecida qualidade. Coisas da vida.
Artisticamente, não se deve lamentar por ele. Como prova, os muitos discípulos que começaram literalmente copiando o som único da batida no violão de sete cordas, como o aclamado Raphael Rabello. "Esse me imitava tão bem que às vezes eu mesmo não sabia quem estava tocando, se eu ou ele", referenda Dino. Morto precocemente nos anos 1990, Rabello chegou a se vestir como o mentor no início de sua carreira. Os dois fizeram os arranjos e gravaram o excelente Raphael Rabello & Dino Sete Cordas, de 1991. "Ele criou uma maneira mais técnica e pessoal de tocar, praticamente reinventando o instrumento. Influenciou várias gerações de violonistas", rasgou-se o pupilo, em depoimento escrito aos 15 anos, reproduzido no site Cliquemusic.
Autor da tese de doutorado Comunicação intercultural: O choro, expressão cultural brasileira, Luis Filipe de Lima é outro discípulo entusiasmado. "Ao inventar numa nova e arrojada linguagem, ele levou o sete cordas a um lugar de destaque na música brasileira", analisa. "Quantos sete cordas pelo Brasil afora, na ausência de um método para o instrumento, já não ficaram horas a fio ouvindo as gravações de Dino e tirando de ouvido suas sensacionais baixarias? Mestre dos mestres, Dino continua sendo nossa principal matriz."
No vinil empoeirado, reverência a Jacob
Entre fãs e parceiros, ele levou a vida enfileirando estúdios e discos, requisitado pelos músicos e cantores mais improváveis. Entre os favoritos, está um nome fundamental para a consolidação da lenda chamada Dino Sete Cordas - Jacob do Bandolim, autor do disco predileto do violonista. Perguntado sobre o trabalho de que mais gosta, ele se levanta do sofá com agilidade surpreendente para seus 85 anos e saca da estante o vinil Vibrações, de 1967. Há muitos outros orgulhos, entre eles um empoeirado 78 rotações, Vingança, relíquia gravada com Linda Batista - vizinho do CD de um médico mineiro chamado Vander, que quase desmaiou ao ouvir o "sim" do mestre. "Era só me chamar que eu estava lá. Nunca fiz restrições a ninguém, porque é minha paixão, meu trabalho", arremata Dino.
A volúpia produtiva ajudou a espalhar a fama do violonista muito além dos limites do choro. Chegou a seu único filho, Dininho, 54 anos, herdeiro do talento e que, como baixista, acompanha Paulinho da Viola há 33 anos. Em 1996, após uma apresentação em Campos do Jordão, ele foi procurado por Richard Boukas, dono de uma famosa escola de música nos Estados Unidos. "Como faço para conhecer seu pai?", perguntou o visitante, cheio de mesuras e reverências. Dininho seguiu o protocolo: deu o endereço e despediu-se com um "aparece lá".
Pois o homem apareceu e, diante do ídolo, desmanchou-se em homenagens. "Estou realizando um sonho de muitos anos. Sou admirador apaixonado de seu trabalho", declarou-se, daquele jeito todo americano. Dino deu ao visitante estrangeiro o tratamento protocolar - hospitalidade e música da melhor qualidade. Os dois passaram a tarde tocando, numa harmonia consolidada pela paixão comum. "Ele conhecia profundamente a obra de papai", recorda Dininho.
O encontro se deu no apartamento simples e de fundos que Dino comprou há 51 anos em Vila Isabel - onde mais poderia ser? - e que serve de mais um exemplo do valor criminosamente pequeno dado aos músicos no Brasil. Gente muito menos criativa ficou milionária em países mais justos com seus artistas. No outono da vida, o criador da baixaria ainda precisa trabalhar para complementar a pequenina pensão que recebe do INSS e os caraminguás do direito autoral. Ele integra o conjunto Época de Ouro e quatro manhãs por semana, há 35 anos, ensina os caminhos das sete cordas a alunos em duas tradicionais lojas de instrumentos do Centro do Rio, a Bandolim de Ouro e a Casa Oliveira. "Tem muita gente talentosa", atesta.
Agora, as comemorações pelos 85 anos de vida e o meio século de estrada incluem a produção de um documentário, vários shows e convites para apresentações no exterior - estes, delicadamente recusados. "Só se puder levar minha mulher. Ela precisa de mim aqui", ele recusa as ofertas. "Hoje, o computador permite que vários gêneros e instrumentos sejam copiados, tirando mercado dos músicos. Só não é assim com o sete cordas, que depende da criatividade do músico", pondera Dininho. "Viverá para sempre."
Como a obra monumental de Dino Sete Cordas.
Aydano André Motta é jornalista.
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